Aprender alguma coisa nova sempre é essencial para continuar a evoluir. Você tem a humildade e a disposição necessárias para isso?
Se você é um migrante digital como eu, provavelmente conviveu com a mentalidade de que “emprego bom é em empresa grande, porque lá você pode fazer carreira”. Talvez seus pais tenham dito isso para você, e certamente nas reuniões de família o assunto apareceu.
Como eu nunca gostei muito da ideia de estudar administração e ficar de terno e gravata atrás de uma mesa nunca foi uma visão de futuro pra mim, persegui outros caminhos bem diferentes. Curioso como fazemos nossas escolhas em momentos chave da vida, nem sempre pelos motivos mais racionais. Mas esse é tema para outro papo.
A mentalidade de “arrume um emprego estável e passe a vida inteira nele que um dia você terá um cargo de chefia” foi demolida pelos processos de reengenharia das empresas a partir dos anos 90. A eliminação sistemática dos cargos de média gerência fez com que “subir na carreira” ficasse muito mais difícil. E agora?
Muita gente ficou paralisada, outros perceberam que era melhor construir uma carreira com base em seus interesses, mudando eventualmente de empresa e fazendo movimentos laterais na carreira. Ou até mesmo passando a empreender – o que se tornou mais e mais frequente.
Empreender é se desafiar todos os dias, enfrentando mudanças de cenário, reagindo rapidamente ao que clientes e concorrentes propõem e tendo muita criatividade e jogo de cintura para encontrar novos caminhos. É impossível fazer isso sem ter muita curiosidade e disposição de aprender constantemente.
Com o avanço tecnológico, essa disposição em aprender e se reinventar se torna essencial. Existe até um nome bem legal para isso: lifelong learning. Em bom português, “aprender a vida toda”. Em um mundo que muda a uma velocidade absurda o tempo todo, nunca foi tão importante ter a mente aberta para aprender algo todos os dias.
Foi-se o tempo em que era possível ser “O” especialista em alguma coisa. Qualquer coisa. Hoje, qualquer criança que acesse o Google ou o ChatGPT consegue, em segundos, ter informações que um Ph.D. demorou décadas para construir. A grande chave, hoje, é entender o que será necessário aprender – e aprender rápido.
No filme Matrix, de 1999, há algumas cenas muito boas nesse sentido. Quando Neo está treinando artes marciais, em um momento ele desperta e diz “uau, eu sei kung fu”. Em outro, Trinity precisa aprender rapidamente a pilotar um helicóptero – e as informações necessárias são baixadas para o cérebro dela. Outro filme é o ""Sem Limites"". Esse é mais novinho, de 2011. Mas também aborda o tema do aprendizado infinito, nesse caso pelo consumo de comprimidos comprados no mercado negro dos remédios.
Essas cenas de ficção não estão mais tão longe de virar realidade. Vou me arriscar a dizer que empresas como a Neuralink e similares vão chegar rápido nisso. Imagine que você poderá implantar um nano chip no seu cerébro que será alimentado por IA generativa toda vez que você der o comando. Esse “download"" pode acontecer toda noite quando você for dormir. Espero estar vivo para ver.
Hoje todos precisamos – e podemos – ser um pouco assim. Você pode entrar em uma reunião e descobrir que seu cliente é uma empresa que usa drones para aplicar fertilizantes de modo personalizado em cada vegetal em uma plantação. Como entender os diferenciais, o impacto que isso tem sobre a agricultura e como comunicar isso? Pode ser preciso aprender para ontem.
E se não for isso, será alguma outra coisa. E de forma cada vez mais acelerada. Isso significa que as pessoas que não tiverem a disposição de aprender sempre, todos os dias, com a mente aberta para se descontruir sempre, estarão obsoletas em pouco tempo. Quem não quiser ser uma metamorfose ambulante vai ficar para trás, não tem jeito.
Existem duas formas de fazer lifelong learning. A primeira é ser empurrado o tempo todo, reagindo ao que o mercado solicita. Mas ser reativo nunca é bom. A segunda forma, muito mais interessante, é ser proativo, tendo aquela curiosidade infinita por aprender todo dia uma coisa nova.
E hoje é muito fácil aprender algo novo todos os dias. Cursos online (gratuitos ou não), vídeos no YouTube ou nas redes sociais sobre literalmente qualquer assunto que te interesse, livros, artigos, blogs, papers científicos, podcasts. Tudo isso está à disposição, o tempo todo.
Temos no bolso (ou ao nosso lado na mesa) uma biblioteca milhões de vezes mais poderosa que a de Alexandria, que há dois mil anos concentrava todo o saber do planeta. Nossos smartphones são exponencialmente mais poderosos que as máquinas que levaram o ser humano à Lua – podemos usar esse poder computacional para aprender algo novo todo dia ou para rir de memes de gatinhos fofos. Cada um decide o que fazer de sua vida...
Existe muita teoria sobre lifelong learning, mas o que mais interessa saber é o seguinte: mantenha-se aberto a novas oportunidades, desafios e experiências. Se possível, aprenda todo dia algo que você nunca fez na vida. Estabeleça uma rotina em que exista um tempo dedicado a estudar e praticar coisas novas (autodisciplina é essencial para isso).
Mais que tudo, saia da sua bolha! Rompa com os algoritmos que te empurram sempre mais do mesmo. Veja filmes diferentes, converse com pessoas de outras áreas, que têm uma visão de mundo diferente da sua, expanda seus horizontes. É assim que se cultiva uma curiosidade infinita. Entrar em contato com o que você não conhece é garantia de ser surpreendido sempre. E isso é muito bom!
Lifelong learning também é uma lição de humildade. É reconhecer que você não sabe alguma coisa, mesmo que tenha cabelos brancos. É entender que tudo muda, até mesmo aquilo que era considerado uma certeza na área em que você é especialista. É admitir que você precisa sempre estar em movimento e em transformação.
Qual foi a última vez em que você fez algo pela primeira vez?
Sobre o autor
Léo del Castillo
"Rápido é o que não volta pra trás."
Essa frase ficou no vidro da agência por vários e vários anos. Criar a cultura do pensamento "lean digital" e fazer isso chegar até o chão de fábrica é, ainda hoje, um enorme desafio para as empresas que começam a fazer esse exercício.